sábado, 24 de outubro de 2009

Quando os sonhos são ameaçados

Quando indagada por um amigo, via e-mail, acerca de meus planos para o próximo ano, fui categórica: continuar viva, enxergando e bem lúcida. Depois do susto na quarta-feira passada, algumas prioridades certamente mudaram em minha vida. A perda parcial da visão do olho direito por alguns instantes, a preocupação e correria geradas por isso, serviram de alerta. Um alerta que não poderia ser ignorado. Um refresco à memória, adormecida pelo comodismo.

O trecho da música A lição, da banda Oficina G3, ilustra muito bem os dois dias de angústia e espera pelo resultado da tomografia e pela consulta com o neurologista: “É sempre a morte que refresca a memória”. Só paramos para pensar na eternidade diante de duas possibilidades: enfermidade e morte. Nossa fragilidade, tanto física quanto psicológica, vem à tona e parecemos impotentes diante dessas realidades. Por mais otimistas que tentemos ser ou parecer, em situações assim, acabamos por “desabar”.
Esperar por um resultado que representa ameaça aos nossos sonhos e planos, pode ser angustiante e desanimador, contudo, pode servir para refletirmos sobre o tipo de vida que estamos levando, e se temos dado valor às coisas que realmente importam. Se temos agradecido pelos dias que começam, pelo fato de estarmos vivos, pelos pais, amigos, o cachorro esperando no portão, o sol ou a chuva lá fora, pela inteligência, pela capacidade física, pela casa, a cama, a comida e por tantos outros privilégios que temos. Isso nos parece tão comum - e passa sem que apreciemos, verdadeiramente, seu valor. Enquanto estamos ocupados demais, esquecemo-nos de que muitos não desfrutam disso.

"Quero trazer à memória o que me pode dar esperança," diz o profeta Jeremias, em Lamentações 3:21. Não se trata apenas de pensarmos positivamente. Trata-se de confiarmos no zelo que Deus tem para conosco e nos lembrarmos disso constantemente, mesmo quando o lado negativo da situação parece ser a única coisa à frente. Não pode haver esperança maior do que esta: ter alguém que zela por nossas vidas e nos escolheu para a vida eterna. Isso não significa que não passaremos por mares tempestuosos, mas que os enfrentaremos, firmes e seguros, saindo deles, vitoriosos.

Pequenas atitudes, grandes mudanças.

O homem, embora se considere grande, é ínfimo diante da fúria da natureza. É grande demais para destruí-la e fazer dela o que bem entende. Pequeno demais para arcar com as consequências de seus atos danosos. Age como se os recursos naturais fossem inesgotáveis, como se a natureza fosse reciclável e autolimpante. Inconsequente, esquece da boa e velha lei da física: “toda ação tem uma reação”.
Poluímos o ar com o interminável e desenfreado crescimento da frota de veículos, que libera todos os dias, toneladas de gases nocivos à camada de ozônio, mas não queremos o aquecimento global. Lançamos lixo nos rios e em lugares impróprios para tal fim, porém não queremos enchentes. Desperdiçamos a água potável, mas não queremos que ela acabe.
O homem é pequeno em atitudes, e menor ainda diante das consequências de seus atos. Mostra o que é, quando agindo sem pensar no futuro, destrói o próprio meio em que vive. Quando diante das adversidades impostas pela fúria da natureza, vê-se desamparado e aturdido. Pequeno. Nada mais. Pequeno diante da infinita capacidade autodestrutiva que possui.
Se toda ação tem uma reação, é hora de levarmos em conta nossos atos. Ora, se a reação tem sido furiosa, devastadora e implacável, há que se repensar quais atitudes estamos tomando. Desastres naturais, cada vez mais frequentes, têm vitimado vidas, patrimônios, histórias e futuros. Isso é reação.A ação mais acertada a ser tomada por cada um é a mudança. Essa sim, fará com que a reação, tanto do próximo quanto da natureza, seja positiva. Não agir e esperar que alguém reaja é contrário à física e à lógica. Façamos a nossa parte.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

A parede no escuro - Altair Martins

A parede no escuro é o primeiro romance de Altair Martins, lançado em 2008 pela Editora Record. Com 250 páginas, custa em torno de R$ 36,00.

Altair Martins é natural de Porto Alegre e nasceu em 1975. Bacharel em Letras e mestre em Literatura Brasileira pela UFRGS, também leciona em escolas de Porto Alegre e é responsável pela cadeira de conto no curso de formação de escritores da Unisinos, em São Leopoldo. Como escritor, estreou com a antologia de contos Como se moesse ferro (1999), seguida de Se chovessem pássaros (2003). Com o livro A parede no escuro, foi o vencedor da segunda edição do “Prêmio São Paulo de Literatura”, em 2009, como melhor autor estreante.

A história de A parede no escuro acontece em Pedras Brancas, onde Adorno é padeiro e dono da Padaria Oliveira. Pai de Maria do Céu e esposo de Onira, Adorno não se conforma de a filha ter deixado sua casa para morar com uma amiga. Pensa que a filha é “machorra”. Sofre de fortes dores no peito. Onira, uma devota que vive fazendo citações acerca da Bíblia e de Deus, tenta a reconciliação dos dois, junto a Adorno. Maria do Céu, a filha, é estudante de veterinária e divide apartamento com Lisla, uma moça negra de dezessete anos.

Emanuel leciona matemática (Geometria) a uma turma desinteressada. É extremamente organizado, tem mania de contar e listar tudo o que vê e não suporta objetos desalinhados. Lisla é uma de suas alunas. Na noite do aniversário de Emanuel, ela tenta seduzi-lo, mas tem sua intenção frustrada, visto que ele não consegue manter relações sexuais com ela e acaba dormindo no apartamento da aluna.

Pela manhã, bem cedo, Emanuel vai buscar seu pai, Fojo, que tem uma grave doença no pulmão, para levá-lo ao médico. Está escuro e chove muito. Ele atropela Adorno em frente à padaria, quando esse descia de sua Kombi com os pães. Foge sem prestar socorro. Retorna ao local do acidente. Ninguém na rua. Adorno está morto. É só mais tarde que Emanuel descobre que seu pai, que mora próximo ao local do atropelamento, havia saído na rua momentos depois do acidente e que, mesmo de longe, conseguira ver dois homens no asfalto e um carro branco. O carro dele.

É aí que mergulhamos nos conflitos vividos por Emanuel. Seu pai, que parece ser a única testemunha ocular do acidente, é hospitalizado em estado grave e já não pode falar acerca do que viu. Emanuel deve se entregar? Seu pai vira que ele havia sido o responsável pela morte do padeiro? Paralelamente, acompanhamos a retomada dos negócios da padaria, o recomeço, as dores e conflitos vividos por Onira e Maria do Céu.

O romance é intrigante. A história é narrada pelos envolvidos nos acontecimentos. O mesmo fato é visto por vários ângulos e raríssimas são as vezes em que uma 3ª pessoa é o narrador. O autor não corrige os personagens, mas deixa-os falando como bem entendem. Nada de português rebuscado e, ouso afirmar, é esse ingrediente que faz com que o leitor praticamente acredite no livro de Altair Martins como sendo algo verídico. Há uma imensa riqueza de detalhes na construção dos personagens. Tamanha riqueza, que os detalhes parecem até de foro pessoal, o que facilita a identificação do leitor com os personagens.

O autor não usa a maneira convencional nos diálogos. Não espere dois pontos e um travessão. Consegue-se identificar uma palavra dita através da letra maiúscula solta no meio da frase, sem um ponto que a anteceda. No começo, isso salta aos olhos como um erro imperdoável de revisão e, mais adiante, parece-nos absolutamente normal. Um novo e único jeito de escrever. Uma oralidade constante onde parece ser possível ouvir o que se lê.

Altair Martins, em dado momento da obra, traça um perfil do sistema educacional na atualidade. Através de Emanuel e seu amigo Coivara, também professor, podemos presenciar valores profissionais sucumbindo diante de turmas indisciplinadas e descomprometidas. Mostra-nos uma realidade onde professor apanha de aluno e, no final das contas, tende a se conformar. Uma realidade na qual o professor tem certa obrigação de aprovar, independentemente do resultado alcançado pelo aluno.

O romance aborda o humano e todas as suas facetas, sem maquiagem alguma. Segredo, dúvida, conflito, perda, dor e recomeço são os principais temas encontrados em A parede no escuro. Os personagens saltam palpáveis das páginas, quase visíveis aos olhos. Próximos e comuns demais. Quase de carne. Quase como nós. Vidas engenhosamente entrelaçadas com prosa e poesia. Uma bela obra literária.