quarta-feira, 21 de outubro de 2009

A parede no escuro - Altair Martins

A parede no escuro é o primeiro romance de Altair Martins, lançado em 2008 pela Editora Record. Com 250 páginas, custa em torno de R$ 36,00.

Altair Martins é natural de Porto Alegre e nasceu em 1975. Bacharel em Letras e mestre em Literatura Brasileira pela UFRGS, também leciona em escolas de Porto Alegre e é responsável pela cadeira de conto no curso de formação de escritores da Unisinos, em São Leopoldo. Como escritor, estreou com a antologia de contos Como se moesse ferro (1999), seguida de Se chovessem pássaros (2003). Com o livro A parede no escuro, foi o vencedor da segunda edição do “Prêmio São Paulo de Literatura”, em 2009, como melhor autor estreante.

A história de A parede no escuro acontece em Pedras Brancas, onde Adorno é padeiro e dono da Padaria Oliveira. Pai de Maria do Céu e esposo de Onira, Adorno não se conforma de a filha ter deixado sua casa para morar com uma amiga. Pensa que a filha é “machorra”. Sofre de fortes dores no peito. Onira, uma devota que vive fazendo citações acerca da Bíblia e de Deus, tenta a reconciliação dos dois, junto a Adorno. Maria do Céu, a filha, é estudante de veterinária e divide apartamento com Lisla, uma moça negra de dezessete anos.

Emanuel leciona matemática (Geometria) a uma turma desinteressada. É extremamente organizado, tem mania de contar e listar tudo o que vê e não suporta objetos desalinhados. Lisla é uma de suas alunas. Na noite do aniversário de Emanuel, ela tenta seduzi-lo, mas tem sua intenção frustrada, visto que ele não consegue manter relações sexuais com ela e acaba dormindo no apartamento da aluna.

Pela manhã, bem cedo, Emanuel vai buscar seu pai, Fojo, que tem uma grave doença no pulmão, para levá-lo ao médico. Está escuro e chove muito. Ele atropela Adorno em frente à padaria, quando esse descia de sua Kombi com os pães. Foge sem prestar socorro. Retorna ao local do acidente. Ninguém na rua. Adorno está morto. É só mais tarde que Emanuel descobre que seu pai, que mora próximo ao local do atropelamento, havia saído na rua momentos depois do acidente e que, mesmo de longe, conseguira ver dois homens no asfalto e um carro branco. O carro dele.

É aí que mergulhamos nos conflitos vividos por Emanuel. Seu pai, que parece ser a única testemunha ocular do acidente, é hospitalizado em estado grave e já não pode falar acerca do que viu. Emanuel deve se entregar? Seu pai vira que ele havia sido o responsável pela morte do padeiro? Paralelamente, acompanhamos a retomada dos negócios da padaria, o recomeço, as dores e conflitos vividos por Onira e Maria do Céu.

O romance é intrigante. A história é narrada pelos envolvidos nos acontecimentos. O mesmo fato é visto por vários ângulos e raríssimas são as vezes em que uma 3ª pessoa é o narrador. O autor não corrige os personagens, mas deixa-os falando como bem entendem. Nada de português rebuscado e, ouso afirmar, é esse ingrediente que faz com que o leitor praticamente acredite no livro de Altair Martins como sendo algo verídico. Há uma imensa riqueza de detalhes na construção dos personagens. Tamanha riqueza, que os detalhes parecem até de foro pessoal, o que facilita a identificação do leitor com os personagens.

O autor não usa a maneira convencional nos diálogos. Não espere dois pontos e um travessão. Consegue-se identificar uma palavra dita através da letra maiúscula solta no meio da frase, sem um ponto que a anteceda. No começo, isso salta aos olhos como um erro imperdoável de revisão e, mais adiante, parece-nos absolutamente normal. Um novo e único jeito de escrever. Uma oralidade constante onde parece ser possível ouvir o que se lê.

Altair Martins, em dado momento da obra, traça um perfil do sistema educacional na atualidade. Através de Emanuel e seu amigo Coivara, também professor, podemos presenciar valores profissionais sucumbindo diante de turmas indisciplinadas e descomprometidas. Mostra-nos uma realidade onde professor apanha de aluno e, no final das contas, tende a se conformar. Uma realidade na qual o professor tem certa obrigação de aprovar, independentemente do resultado alcançado pelo aluno.

O romance aborda o humano e todas as suas facetas, sem maquiagem alguma. Segredo, dúvida, conflito, perda, dor e recomeço são os principais temas encontrados em A parede no escuro. Os personagens saltam palpáveis das páginas, quase visíveis aos olhos. Próximos e comuns demais. Quase de carne. Quase como nós. Vidas engenhosamente entrelaçadas com prosa e poesia. Uma bela obra literária.

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