sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Dom Casmurro - Síntese pessoal e análise temática


Escrever, mesmo que poucas palavras, sobre qualquer obra de Machado de Assis é um desafio e tanto. Um dos maiores escritores da língua portuguesa, considerado por mim, o maior expoente da literatura brasileira, Machado consegue ser leve e, ao mesmo tempo, contundente em seus textos.

Dom Casmurro conta a história de Bentinho e Capitolina, ambos respectivamente com idades de 15 e 14 anos. A paixão dos dois não impede que D. Glória, mãe do menino, cumpra sua promessa de enviá-lo para o seminário. Lá, ele conhece Escobar e tornam-se grandes amigos. Bento abandona o seminário, forma-se bacharel em Direito e casa-se com Capitu. Ezequiel, filho do casal, apresenta traços e modos semelhantes aos do amigo Escobar – o que só aumenta as desconfianças de Bentinho quanto à traição da esposa. O casamento entra em crise e o possível adultério faz crescer o ciúme do marido. O tempo transforma-o em um velho solitário, “calado e metido consigo” – o que rende ao protagonista o apelido de Dom Casmurro.

A obra, datada de 1899, é perfeito exemplo da genialidade de Machado: enquanto trata de contar suas memórias e segredar suas desconfianças, o narrador ‘conversa’ com o leitor. Esse recurso, chamado metalinguagem, é amplamente utilizado na narrativa. O livro é dividido em 148 capítulos curtos – muitos deles apresentam apenas um parágrafo -, e percebe-se uma constante preocupação em não entediar o leitor, como pode ser observado no capítulo 101: “Pois sejamos felizes de uma vez, antes que o leitor pegue em si, morto de esperar, e vá espairecer a outra parte; casemo-nos”. Uma atmosfera de intimidade é criada por Machado durante a narrativa. O capítulo 119, por exemplo, é destinado à leitora que abriu o livro para descansar e quer fechá-lo às pressas, ao ver que a história beira “um abismo”. Machado, carinhosamente, escreve: “Não faça isso, querida; eu mudo de rumo”.

O enredo de Dom Casmurro não é linear. Bentinho relata os acontecimentos de acordo com suas lembranças. Sempre que introduz informação desconhecida do leitor, explica-a, e, se preciso, abre capítulo novo para tal:

... Perdão, mas este capítulo devia ser precedido de outro, em que contasse um incidente, ocorrido poucas semanas antes [...] Vou escrevê-lo; podia antepô-lo a este, antes de mandar o livro ao prelo, mas custa muito alterar o número de páginas; vai assim mesmo, depois a narração seguirá direta até o fim. Demais, é curto. (Capítulo 130)

O texto de Machado de Assis é repleto de definições próprias do narrador: “[...] as pernas também são pessoas, apenas inferiores aos braços, e valem de si mesmas, quando a cabeça não as rege por meio de ideias”, (capítulo 13). Além disso, o escritor apresenta suas conclusões pessoais como se ditas pelas coisas que o rodeiam. Conversas com coqueiros velhos e vermes roedores de livros podem ser encontradas na obra:

Um coqueiro, vendo-me inquieto e adivinhando a causa, murmurou de cima de si que não era feio que os meninos de quinze anos andassem nos cantos com as meninas de quatorze; ao contrário, os adolescentes daquela idade não tinham outro ofício, nem os cantos outra utilidade. Era um coqueiro velho, e eu cria nos coqueiros velhos, mais ainda que nos velhos livros. (Capítulo 12)

- Meu senhor, respondeu-me um longo verme gordo, nós não sabemos absolutamente nada dos textos que roemos, nem escolhemos o que roemos, nem amamos ou detestamos o que roemos: nós roemos. (Capítulo 17)

Pressinto, ao escrever essas linhas, que não poderei detalhar tudo quanto gostaria a respeito de Dom Casmurro. Há uma infinidade de características psicológicas das personagens, apresentadas pela perspectiva do protagonista supostamente enganado. Em momento algum fica clara a traição da esposa. Penso que o segredo principal do sucesso da obra, além das características expostas no presente trabalho, seja “o enigma de Capitu”. Tentar decifrá-lo, baseado na versão de um narrador desconfiado, é encarar um desafio e tanto – não me atrevo fazê-lo. Concedo a Capitu – mulher de “olhos de ressaca” e de “cigana oblíqua e dissimulada” -, o benefício da dúvida.

Creio que não há quem leia a obra machadiana e não se surpreenda. Encanta-me a capacidade de prender o leitor, de estabelecer contato numa relação ‘quase-mediada’. Ao terminar a leitura, percebo que, se possível fosse, gastaria horas seguidas ouvindo Machado de Assis falar tal qual em Dom Casmurro.

O ciúme em Dom Casmurro

Machado de Assis, em Dom Casmurro, traça um marcante perfil psicológico de Capitu: risonha, divertida, curiosa e com grande capacidade de dissimulação. A facilidade de sair-se bem em situações embaraçosas e seus olhos de “cigana oblíqua e dissimulada”, acentuaram as desconfianças de Bentinho em relação à traição de Capitu e Escobar. Quando eram jovens, ela dissimulara com desenvoltura em situações difíceis para ambos. Em uma delas, relatada no capítulo 34, o protagonista declara: “Assim, apanhados pela mãe, éramos dois e contrários, ela encobrindo com a palavra o que eu publicava pelo silêncio”. Quando surpreendidos pelo pai, no capítulo 37, não foi diferente: “[...] Capitu não se dominava só em presença da mãe; o pai não lhe meteu mais medo. No meio de uma situação que me atava a língua, usava da palavra com a maior ingenuidade deste mundo”.

Para Pines (apud COSTA, 2005), o “ciúme é uma reação a uma ameaça percebida, real ou imaginária, a uma relação valorizada ou de sua qualidade”. Segundo De Silva, citado por Costa (2005), o ciúme é “expectativa, apreensão de perder o parceiro, ou perder o seu lugar de afeição por parte do parceiro”. Após o casamento, Bentinho demonstra sinais de ciúme ao relatar as idas aos bailes com a esposa:

[...] De dançar gostava, e enfeitava-se com amor quando ia a um baile; os braços é que... Os braços merecem um período. Eram belos, e na primeira noite que os levou nus a um baile, não creio que houvesse iguais na cidade [...] Eram os mais belos da noite, a ponto que me encheram de desvanecimento [...] Já não foi assim no segundo baile; nesse, quando vi que os homens não se fartavam de olhar para eles, de os buscar, quase de os pedir, e que roçavam por eles as mangas pretas, fiquei vexado e aborrecido. (Capítulo 105)

Segundo Betty Joseph (1992, p. 185), o ciúme envolve três pessoas e apresenta vários graus de intensidade, podendo chegar a extremos: delírios e descargas agressivas. No capítulo 136, Bentinho cogita suicídio: “O meu plano foi esperar o café, dissolver nele a droga e ingeri-la”. No capítulo seguinte, ele oferece o café com a droga ao filho, mas recua e quando dá por si, está a “beijar doidamente a cabeça do menino”. Seriam esses extremismos causados pela dúvida movida pelo ciúme?

Quando Escobar morre e é velado, Bentinho observa Capitu: “[...] A confusão era geral. No meio dela, Capitu olhou alguns instantes para o cadáver, tão fixa, tão apaixonadamente fixa, que não admira saltassem algumas lágrimas poucas e caladas...” Ele via sinais e não se pode afirmar se eles eram claros ou turvos pelo ciúme.

No capítulo 138, o casal discute e Capitu é acusada de traição pelo marido ciumento. A esposa retruca “em um tom juntamente irônico e melancólico: - Pois até os defuntos! Nem os mortos escapam aos seus ciúmes!” A Bíblia Sagrada, em Provérbios, capítulo 6, versículo 4, diz que “o ciúme excita o furor do marido”; em Cantares de Salomão, capítulo 8, versículo 6, o esposo diz à amada: “Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte e duro como a sepultura é o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, são veementes labaredas”.

Não é possível definir se havia fundamento na suspeita de Bentinho. O ciúme excitou-lhe a desconfiança e, como sepultura, enterrou o casamento que começara feliz. As labaredas queimaram a possibilidade de entendimento e reconciliação. Bento conta sua história, solitário e amargurado pela convicção de que fora traído. Ele encerra: “[...] qualquer que seja a solução, uma coisa fica, [...] a minha primeira amiga e o meu maior amigo [...] quis o destino que acabassem juntando-se e enganando-me... A terra lhes seja leve!”

Análise produzida para a disciplina de Leitura e Produção de Textos III, ministrada pelo professor Elenor José Schneider. UNISC. Curso de Comunicação Social - Jornalismo. Novembro 2010.

2 comentários:

Affonso Schmitt Paiz disse...

Ah, enigmático olhar de Capitu, quase tão famoso quanto o sorriso de Monalisa, e a intrigante história de uma suposta traição, da qual dúvido muito que tenha acontecido. Pensa comigo! O autor é homem, coloca na personagem um ar sedutor e envolvente, joga para cima dela o fardo de uma possível traição, quando na verdade Bentinho era um ciumento, e via todas as atitudes com maldade. Talvez para ele tenha sido mais fácil conviver com a dúvida, do que ter a certeza de que estava erra quanto ao seu julgamento! As pessoas são assim, sempre jogam a culpa sobre os outros!
Muito bom o post, desejo a vc sucesso! Ah, tem uma selo aguardando por vc lá no meu blog.

Bjs

Cris disse...

Obrigada por acrescentar tuas belas palavras ao texto! Também não acredito na traição dela. O ciúme cega e nos faz ver coisas onde não há.