terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Falhas da modernidade

O telefone da adolescente toca:
- Filha, deixei a roupa na máquina de lavar. Tá tudo pronto. O sabão em pó e o amaciante já estão lá. É só apertar o botão para ligar.
- Só isso mesmo? Não tem mais nada que eu precise fazer?
- Não. A máquina faz todo o trabalho sozinha. Um conforto só. Liga, que ela faz o resto.
- Tá.
...
Horas depois...
- Alô, mãe, olha só... A máquina não fazia tudo? 
- Fazia, filha. Por quê?
- Sei lá... Faz um tempão que tô espiando lá fora e as roupas ainda não foram para o varal.



sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Dois links


1) Pai, mãe, saí no jornal: Taquariense está entre os 13 novos escritores revelados por concurso literário 

2) Crônica "A dor do outro", publicada no Unicom - jornal-laboratório do curso de Comunicação Social da Unisc (espia na página 2):


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quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Espera um pouco mais

- Não acredito que vou perder meu horário de almoço na fila por falta de atendentes
nos guichês.
- Pois é...
- Onde eles estão, hein?
- Devem estar almoçando...

Quem cria raízes nas filas de agências bancárias,  Correios e demais estabelecimentos, logo percebe que os funcionários não retornam do almoço. Eles nem saíram. Eles não existem. É lei municipal aqui e ali: as agências devem colocar à disposição dos usuários, pessoal suficiente no setor de caixas, para que o atendimento seja realizado em tempo razoável – em média, 30 minutos. Definitivamente, o que considero tempo aceitável de espera na fila, destoa, de forma gritante, do que consideram as agências. Resta-me encarar o tempo despendido como oportunidade para melhorar minhas habilidades nos campos da resistência e da observação.

Encaro as demoradas esperas como uma bateria de testes a qual devo me submeter para ser admitida no mundo das pessoas adultas – aquelas que pagam as contas, enviam cartas ou recebem as indesejadas notificações de dívidas.  O primeiro teste é simples: tem por intuito analisar minha habilidade de escolha. Opto, obviamente, pela fila menor. Descubro, no entanto, que esta é a que anda mais devagar. Eis o segundo teste: avaliar minha capacidade de permanência, de otimismo, de esperança. “Daqui a pouco melhora”. Os testes não param. Testa-se a resistência das articulações, o funcionamento do sistema circulatório, e, sobretudo, a paciência.

Confesso que tenho dificuldades em acertar a idade dos indivíduos.  Aproveito, então, o “chá de banco” para me aperfeiçoar na prática. Dirijo a atenção à fila de idosos, deficientes e gestantes. Percebo que as pessoas andam muito bem conservadas. Não há rugas em alguns rostos masculinos da fila, não há sinal algum de deficiência, e, claro, de
gravidez. Pergunto-me, intrigada, por que não se encontram na fila em que estou. Não obtenho resposta e concluo: minha inaptidão para adivinhar idades é irreversível.  O mesmo acontece com o tempo de gestação de certas mamães. Simplesmente não atino.

Quem esperou até agora, espera um pouco mais.  Talvez, em pouco tempo, o bom senso chegue às agências de braços dados com os atendentes que faltam. Será uma entrada triunfal. Todos os testados em filas – tanto os observadores, como eu, quanto os observados -, aplaudirão de pé, obviamente, o fato histórico: o dia em que as leis municipais foram respeitadas e, consequentemente, os clientes do mundo adulto. Até lá, espera, criança! A fila anda. Devagar, mas anda.

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2º lugar na categoria "Crônica", no 3º Concurso Literário da Academia Literária do Vale do Taquari (Alivat). Publicada no livro Escritos/Escritores - Coletânea III.

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