quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Uma discreta descrição


O cursor pisca, incessantemente, no documento aberto na tela do computador. Pede um texto, dois parágrafos que sejam. Eduarda, de pijama azul e pantufas de coelho - cujas orelhas se movimentam ao sabor dos passos dados pelos pés da dona -, levanta-se e vai à cozinha. Precisa de café para escrever. Passa pela sala, olha os quadros na parede. Procura uma ideia para o texto. Com os cabelos bagunçados e os olhos ainda manchados de rímel, Eduarda passa pelo pai, que assiste a TV, sentado no sofá. Ele recebe-a com um “boa tarde”. Eduarda franze o cenho. Olha para o relógio na parede: 12h05min. Ela devolve o “boa tarde” com um sorriso. O pai balança a cabeça e sorri. Já está acostumado à rotina da filha: dorme tarde, acorda tarde e escreve.

Eduarda põe o café na xícara, abre o micro-ondas, estipula o tempo de um minuto e fecha-o. Espia a TV. Está passando uma reportagem sobre cubos mágicos, num telejornal. Ergue a sobrancelha direita. A risada não tarda a aparecer.
- Quanta relevância! - pensa. 
Desvia o olhar da TV e atenta para a contagem regressiva do micro-ondas. Cancela a operação no último segundo restante - odeia os três apitos do aparelho. Pega a xícara, passa novamente pelo pai, dá-lhe um beijo na barba por fazer, e volta ao quarto, com as orelhas das pantufas anunciando um tombo a cada passo. Repousa a xícara em frente à tela, senta-se e encara o cursor novamente. Eduarda precisa fazer uma descrição. Tal qual a de Gay Talese sobre Frank Sinatra. Eduarda é estudante de jornalismo.

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Microconto



Fiquei encantada com o microconto (chamemos assim) que minha amiga e colega de curso, Juliana Bencke, escreveu. Reproduzo as linhas:
Quando o telefone tocou, ela não correu para atender. Pé por pé, atravessou a sala calmamente. Quando o aparelho tocou pela terceira vez, ainda faltavam dois metros até a escrivaninha, e ela aproveitou para agarrar o gato que cruzava a sala naquele momento, de olho no prato de macarrão que ela havia deixado em cima da mesa da cozinha. Na quinta chamada, alcançou o fone. Apesar do nervosismo do que estava no outro lado da linha, conversou com naturalidade. Sem largar o gato, puxou uma cadeira que estava por perto e sentou. Não que tivesse se assustado. Pelo contrário, continuou alisando o pelo do bichano com cuidado e olhando para o porta-retrato acomodado em cima da escrivaninha como se, assim, pudesse compreender certas coisas. Não se preocupou em colocar o fone de volta no gancho. Deitou, com as pernas encolhidas, no sofá de dois lugares e chorou por meia hora. Almoçou quieta a comida fria, vestiu o único vestido preto – usado em todos os funerais – e saiu. 
Juliana Bencke

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Regresso



Imagem de H Rotgers

Deixei meu coração naquela rua.
Deve estar em algum buraco 
daquela estrada de chão.
Deve estar na cor das casas,
nos cachorros no portão.
Deve estar no velho número
daquela antiga casa, 
doce e amarga prisão.

Deixei meu coração naquela rua.
Deve estar, ainda, batendo entre as tuas mãos.
Preso, indefeso, me esperando.
...
Desde que o deixei,
o tempo, a vida, o pensamento,
o olhar e a lágrima estão suspensos.
Talvez eu volte para buscá-lo, um dia.
Talvez eu nunca tenho saído de lá.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Protesto


Imagem de abcdz2000

Aquela frase boa - o começo de uma história, talvez - pipoca na mente, do nada.
- Não preciso anotar - penso, sabendo que sim, preciso desesperadamente, porque vou esquecer (como sempre faço).
A frase corre, pula, faz protesto, grita, traz outras para a manifestação, me obriga a sair da cama, acender a luz e procurar por uma caneta.
Anoto-a. Anoto as demais - essas escandalosas! 
Espero.
O protesto acaba. O silêncio chega.
Espero. Nada.
- Devem ter ido embora.
Apago a luz. Deito-me. Fecho os olhos e ouço nova algazarra: voltam elas, trazendo mais manifestantes pela mão. Não tem jeito: no mundo das ideias, quem tem sono precisa sonhar acordado. E escrevendo.

Conselho


Corrige-te, coração corroído. 
Corre.

Imagem de Alex Bruda

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Pequena artista

Andava pela estrada de chão 
e catava pedrinhas, que, 
mais tarde, 
coladas em uma folha de ofício, 
formariam a rua de uma "obra de arte".

Imagem retirada daqui

sábado, 11 de agosto de 2012

Telejornalismo e espetáculo - uma linha tênue


Imagem de Jay Lopez
sxc.hu
Em Existe vida fora da TV?, capítulo do livro Comunicação e jornalismo: a saga dos cães perdidos (2000), Ciro Marcondes Filho aborda a distinção dos termos “essência” e “existência”, buscada pelos homens desde a Antiguidade. Para ele, a confirmação da existência vai além do “penso, logo existo” de Descartes: se dá pelo posicionamento ocupado na família, na comunidade e no mundo. Segundo Marcondes Filho, a prova da existência atual é a tecnologia. Para serem considerados existentes, todos os fatos jornalísticos precisam passar pela TV.

O autor aponta o telejornal como a síntese do formato televisivo. Com as evoluções tecnológicas, o telejornalismo - no princípio, variante do jornalismo impresso -, passou a ter características próprias. Desse modo, na opinião crítica de Marcondes Filho, a leitura de notícias transformou-se em show televisivo. Ele enumera paradigmas próprios do telejornalismo, surgidos no final do século XX, e reflete sobre a influência que exercem no telejornalismo atual. Dentre eles, está o modelo esportivo de noticiário, no qual as notícias são apresentadas como um jogo de futebol. As imagens, por si só, transmitem a mensagem, sem que haja a necessidade de explicar o que o telespectador vê.

Outro modelo abordado é a lógica da velocidade, que diz respeito tanto à rapidez com que uma emissora apresenta um acontecimento ao público quanto ao ritmo em que as notícias são apresentadas. Desse modo, classifica-se o que é conteúdo de qualidade não pela relevância que terá na vida das pessoas, mas pela possibilidade de ser apresentado antes dos demais. O critério, perigoso para a qualidade da informação, torna as notícias superficiais e transforma jornalistas em trabalhadores de linhas de montagem industrial, visto que precisam tomar decisões instantâneas, separar o material imediatamente e triar informações básicas. A rapidez impede a reflexão daquele que produz a notícia e do que a consome.

A preferência do “ao vivo” é outro paradigma apontado pelo autor. Para alguns jornalistas, transmitir acontecimentos ao vivo implica “pureza plena de uma transmissão”.  No entanto, o “ao vivo” não está isento da escolha do ângulo pelos cinegrafistas, nem da decisão de noticiar um fato em detrimento de outro. Para Marcondes Filho, o que se vê no “ao vivo” é resultado de muitas escolhas e da interferência de muita gente; é uma produção e não o fato em si.

Na substituição da verdade pela emoção, outro paradigma, o telejornal tem de provocar emoções. Se o telespectador sente aquela emoção como verdadeira, também crê que a informação é verdadeira, sem levar em conta que as emoções são manipuláveis. Marcondes Filho também critica a popularização da televisão, na qual nenhuma mensagem complexa tem vez. Ele explica que isso ocorre porque não se tem controle sobre a memória e o conhecimento dos telespectadores a respeito de determinado assunto e, portanto, é preciso começar do zero a cada vez que se conta uma notícia.

O autor aponta a televisão como uma máquina incessante de fazer o nada: ela produz imensas quantidades de material – montagens, roupagens, cenários – que não serão gravadas na memória do telespectador. Para ele, isso se dá porque o que interessa é a emoção do momento, a sensação imediata. O ato de pensar vai de encontro a isso; daí o expurgo da reflexão, último paradigma. Segundo ele, para a grande maioria dos fãs da TV, não há espaço para discussões sobre causas e assuntos mais profundos.

Marcondes Filho faz um apanhado de vários autores sobre as questões abordadas no capítulo, com o intuito de respaldar suas argumentações. A visão pessimista do autor em relação ao jornalismo televisivo serve, no mínimo, para deixar os comunicadores atentos ao trabalho que têm realizado. Trabalhar em meio a ditadura do tempo, transmitir emoção e ser simples - sem parecer simplório -, são alguns dos desafios enfrentados diariamente pelos profissionais da comunicação.

Mesmo os estudantes, em suas primeiras reportagens nos trabalhos acadêmicos, demonstram preocupação em construir uma linguagem que surta efeito: focar os olhos marejados de lágrimas, flagrar a ansiedade do entrevistado, explícita no mover das mãos, por exemplo. No entanto, é preciso mais. Se só a TV comprova, de fato, que os acontecimentos verdadeiramente ocorreram; se só ela prova a existência, é necessário refletir sobre o modo de transmitir “a prova”. As roupagens e linguagens do fazer jornalístico não são um espetáculo à parte, mas ferramentas para levar conteúdo de qualidade ao telespectador.

Menos técnica, mais conversa, por favor


Em Entrevista: o diálogo possível (1986), a jornalista Cremilda de Araújo Medina aponta a entrevista como um braço da comunicação humana que vai além da técnica de fazer perguntas e obter respostas. Segundo a autora, o diálogo é o modo mais eficaz de transmitir autenticidade e gerar identificação entre o emissor, o repórter e o receptor. Entrevistadores com perguntas e respostas preestabelecidas, que apenas conduzem o entrevistado a resultados já esperados, são o maior obstáculo para que, de fato, o diálogo seja estabelecido. Mais do que impor questionários e cumprir a pauta, é preciso humanizar a entrevista, interagir, realizar o “diálogo possível”. 

Para Medina, a entrevista pode ser classificada em três troncos: recolher os fatos, informar e motivar. Ela cita Edgar Morin, para quem o repórter deve assumir uma postura simpática e tranquilizadora, visto que o entrevistado reage de acordo com o clima da entrevista. Além disso, a situação social, histórica, e a personalidade do entrevistado também influenciam no resultado dessa interação. Ainda baseada em Morin, a autora destaca a entrevista como tentativas de compreensão ou de espetacularização. Na primeira, busca-se entender os conceitos, os valores e a história do entrevistado; na segunda, o pitoresco, o sensacionalismo e a ironia são enfatizados.

Medina chama a atenção para a necessidade de preparação do entrevistador. Ele deve munir-se com informações sobre o tema, recorrer a arquivos de referência e saber como o entrevistado se comporta numa entrevista, a fim de encaminhá-la com agilidade e obter aproveitamento satisfatório da pauta. De acordo com a jornalista, o importante é a curiosidade da audiência ser saciada, e não a do repórter. As fontes também recebem atenção especial da autora: para ela, os comunicadores sempre tendem a recorrer aos mesmos grupos de fontes oficiais. Na busca pelo diálogo possível, deve-se ouvir todas as vozes e descobrir novos entrevistados qualificados.

Embora o repórter tenha que ser objetivo, Medina afirma que não há como escapar da subjetividade do entrevistado nem de sua própria subjetividade. Após a entrevista, ao retornar à redação, ele precisa decidir, juntamente com o editor, se usa o depoimento coletado para escrever uma notícia - estruturada como a conhecemos -, ou se faz um aprofundamento e relata tudo o que aconteceu. No impresso, essa opção exige mais espaço; no rádio e na televisão, mais tempo no ar. Na hora de dar forma à entrevista – a autora dirige-se ao impresso em toda a obra –, pode-se fugir do padrão convencional das aspas e travessões. Ao transcrever o diálogo, o entrevistador decide qual será a estrutura da matéria – linear, fragmentada, alinear – e qual foco a narrativa terá.

A autora ressalta a importância de compreender o modo de ser e de falar do entrevistado. As emoções devem estar presentes na narrativa, nas entrelinhas do diálogo, no silêncio, no ritmo. Ela enumera alguns ruídos que dificultam a interpretação da mensagem e tornam o texto pouco fluente e claro: frases extensas, mal estruturadas, intercalações em excesso e falha nos tempos verbais. Embora considere importantes as regras presentes em manuais de estilo, Medina defende o predomínio da preocupação com o conteúdo humano, da naturalidade e da “magia de uma boa história”.  

Entrevista, o diálogo possível é um texto de fácil compreensão, embora alguns capítulos repitam ideias que poderiam estar agrupadas. Medina desenvolve o texto em ordem linear: a preparação, a entrevista, a volta à redação e a montagem da matéria. Dentre os conceitos mais importantes do livro, a humanização da entrevista merece destaque. Nas entrevistas que já fiz, percebi o quanto é importante – e nada fácil – deixar o entrevistado à vontade. O diálogo verdadeiro consiste em desarmar o outro e a si mesmo, não apenas porque é preciso fazê-lo – para obter as melhores informações –, mas porque há real interesse no que a fonte tem a dizer.

O preparo do repórter antes da entrevista – a busca por informações sobre o tema e o entrevistado – e o modo como o texto será editado também são ensinamentos valiosos do livro. Mais do que comprometimento e talento, a sensibilidade é fundamental para contar a história do modo que ela merece ser contada.

Todos os homens do presidente

Uma aula sobre jornalismo investigativo
Todos os homens do presidente (All the president’s men), de 1976, foi produzido pela Warner Bros, nos Estados Unidos, e dirigido por Alan J. Pakula. O longa-metragem, de 138 minutos, teve oito indicações ao Oscar e levou quatro estatuetas: melhor ator coadjuvante, melhor roteiro adaptado, melhor direção de arte e melhor som. No elenco, nomes de peso: Robert Redford e Dustin Hoffman ditam o ritmo do filme na pele de dois jornalistas em busca de uma notícia que não sabiam se, de fato, existia.

Os repórteres Bob Woodward e Carl Bernstein, do jornal Washington Post, são incumbidos de cobrir a prisão de cinco homens flagrados enquanto tentavam instalar grampos e escutas na sede do Comitê Nacional Democrata, em Watergate – complexo de escritórios e apartamentos, em Washington, Estados Unidos. A dupla, incentivada pelo editor-geral, passa a investigar o envolvimento da Casa Branca no caso. Uma verdadeira aula de jornalismo investigativo que culminou com a renúncia de um dos presidentes mais populares dos Estados Unidos: o republicano Richard Nixon.

Logo no início, a imagem de uma data sendo datilografada, emitindo, ao mesmo tempo, o som da máquina de escrever e o som de um tiro a cada caractere, deixa clara a mensagem do filme: as palavras são armas poderosas; nas mãos da imprensa, mais poderosas ainda. A trama exige atenção: possíveis envolvidos no caso são acrescentados a todo o momento na lista dos dois jornalistas. A profusão de nomes é digna de fazer com que qualquer espectador, mesmo atento, se perca.

As cenas escuras – gravadas à noite -, e a abundante iluminação da redação do Washington Post são contrastantes e se fazem presentes em todo o longa. É nesse cenário que os jornalistas correm atrás da notícia, aparentam não ter vida social e se comportam como verdadeiros investigadores. A lista de aspectos jornalísticos abordados no filme é extensa: investigação, insistência, relacionamento com as fontes, ética, faro jornalístico. Todos os homens do presidente merece a atenção dos professores de comunicação e de todo aspirante à jornalista.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Luta perdida

Vencedor do Prêmio Jabuti, em 2005
Viúvas da terra: morte e impunidade nos rincões do Brasil (2004), do jornalista Klester Cavalcanti, narra a história de mulheres que perderam maridos envolvidos na questão agrária, no sul e sudeste do Pará. Com 183 páginas, o livro publicado pela editora Planeta rendeu ao escritor o Prêmio Jabuti na categoria Livro-reportagem, em 2005. A matéria que deu origem à obra, publicada na revista Terra, em novembro de 2002, foi finalista do Natali Prize, prêmio considerado o mais importante do mundo na área de Jornalismo de Direitos Humanos.

Viúvas da Terra é resultado de cinco anos de pesquisa sobre a violência que ocorre no meio agrário brasileiro. A lista de entrevistados pelo escritor é extensa: mais de 70 pessoas, entre parentes de vítimas, sobreviventes de massacres, advogados, policiais, sociólogos e acusados.  Para contar os casos narrados no livro, mais de três mil páginas de inquéritos policiais e de processos judiciais foram analisadas. Um árduo trabalho com o intuito de trazer à tona a realidade de agricultores submissos a fazendeiros que fazem as próprias leis.

Os personagens da obra estão diretamente envolvidos na luta pela reforma agrária. De um lado, trabalhadores rurais e sindicalistas, que sonham em conquistar um pedaço de terra para sustentar a família; de outro, fazendeiros, madeireiros, políticos e empresários, prontos para responder de forma truculenta a quem ousar contrariar suas ordens. Diferentes histórias são contadas, mas fica evidente o que elas possuem em comum: as viúvas enfrentam a falta de condições para manter a casa e, impotentes, assistem à impunidade dos crimes que desestruturaram suas famílias.

Mais do que evidente, o descaso da Justiça em relação aos homicídios é gritante. As estatísticas denunciam a impunidade: dos 1.373 assassinatos que se deram envolvendo disputas agrárias no país, apenas 122 foram a julgamento, no período de 1985 a 2003. Houve nove condenações e, até a conclusão do livro, nenhuma prisão. Nos seis casos apresentados pelo autor, por mais consistentes que fossem as evidências, predominaram a desobediência à lei e o retardamento dos processos judiciais.

Lições

O livro traz preciosas lições para os profissionais da comunicação. A ideia de investigar e publicar a realidade da questão agrária surgiu com a observação de notas relativas aos assassinatos de agricultores, nas páginas dos jornais do Pará. Daí a importância de os comunicadores estarem atentos ao que é recorrente na mídia, e, portanto, encarado como habitual e não merecedor de atenção.  Viúvas da terra denuncia, literalmente, não ao poder judiciário o que já é de seu conhecimento, mas aos brasileiros - alheios à causa - a realidade timidamente apresentada nos jornais diários.

Além disso, o livro revela os nomes verdadeiros dos advogados, juízes, desembargadores e promotores, que cumpriram ou não sua função. Nomes fictícios deixariam a credibilidade do trabalho à mercê de especulações. Para Cavalcanti, "o jornalismo tem que ser comprovável". As lições continuam: as poucas, mas densas páginas de Viúvas da terra apresentam forte carga emocional. Na narrativa, o jornalista faz uso de recursos literários e de observações minuciosas para montar o cenário na mente do leitor – prova de que apuro literário e sensibilidade, quando bem dosados, não descaracterizam o estilo jornalístico.

O sopro de realidade proporcionado pela leitura da obra é um alerta à sociedade, aos comunicadores e à Justiça. A reforma agrária, pouco discutida nos dias atuais, é questão não resolvida no Brasil. É luta perdida para milhares de agricultores. A função do jornalista é apontar o problema e evidenciá-lo a ponto de abrir os olhos da sociedade, e nisso, Klester Cavalcanti não deixa a desejar. Viúvas da terra cumpre, com extrema competência, o seu papel: revela, perturba, revolta e comove.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Estrelas cadentes

Caminho pelo céu e chuto estrelas
- As pedras do negro véu.
É tudo quieto, só ouço isso:
O pensamento, o andamento, o reboliço.

Aqui embaixo, fazes um pedido.
Depois exclamas, embevecido:
- Olha! Estrelas cadentes!

Imagem de Renate Kalloch


Banda de garagem



Quando criança, queria ter uma banda e ensaiar na garagem. 
A família nunca teve carro - nem espaço para o ensaio. 
Viu o sonho ir pelo ralo.

Foto de Ana Labate
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sexta-feira, 4 de maio de 2012

Como escrever um tweet


Fiz essa brincadeirinha para ilustrar como funciona meu processo de criação (de qualquer besteira que escrevo). E vocês, como escrevem?

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Das surpresas agradáveis

Pesquisando sobre o escritor Altair Martins, eis que encontro, no site oficial do autor, uma resenha que fiz sobre o livro A parede no escuro. Um misto de orgulho e surpresa para encantar esta tarde cinza de abril.

O site: Altair Martins

A crítica: A parede no escuro

O texto foi publicado, aqui no Incontinência Literária, em 21 de outubro de 2009.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Maria

Rodoviárias são reservatórios de pessoas interessantes.
Estão repletas de gente que espera o ônibus.
Gente que espera que alguém as encontre para que possam falar.
Gente que espera encontrar alguém que tenha algo interessante a dizer. Enquadro-me nesta opção.

Não sei o sobrenome da Maria.
Nos 20 primeiros minutos de conversa, enquanto esperávamos o ônibus, éramos completamente anônimas.
O anonimato nos torna cúmplices. A troca é inevitável. 
O estranho é uma fonte.

- Qual é mesmo o teu nome? – perguntou-me depois de relatar uma parte dos seus problemas.
- Cristiane.
- Cristiane! Não acredito! É o nome da minha filha mais velha! - comemorou, enquanto beijava minha mão direita. 

O estranho é mãe.

- E o teu nome? – perguntei.
- Maria.

O ônibus chegou e o papo se estendeu durante o longo caminho de pó e buracos.
Maria nunca fez teatro, mas tornou seu problema tão interessante que eu teria ficado horas a ouvi-la. Ela falava com os olhos, com os gestos, com o toque de leve na minha mão ou no ombro quando a parte da história era mais importante. Chamava-me pelo nome, prendia minha atenção com seu discurso. Tinha cabelos lisos e o semblante cansado e marcado pelas rugas. Faltavam-lhe alguns dentes. Maria não era velha. Maria era linda. Maria era gente, dessas, de verdade.

Dei conselhos já ouvidos por ela e disse-lhe meia dúzia de palavras, também já conhecidas.

- A minha filha me disse a mesma coisa. Eu tenho é que querer mudar a situação, né? Tenho que dar o primeiro passo. Só tô esperando que ele apronte mais alguma coisa, tô esperando a gota d’água, entende?

O estranho ama.

A parada na qual eu iria descer se aproximava. A pressa, o movimento do ônibus - agora já no asfalto -, e as teclas pequenas não me permitiram fazer milagres: no meu celular, o sobrenome da Maria consta como “do bus”. O sobrenome, aliás, é detalhe quando se conhece gente assim, dessas, de verdade.

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sexta-feira, 16 de março de 2012

Nenhum de Nós na Unisc

Não. Não é isso. Os estudantes não fizeram paralização. Na verdade, todos nós estávamos na Unisc para prestigiar o Nenhum de Nós. Agora o título ficou claro, né? O show, que marcou a volta às aulas da universidade, ocorreu na quinta-feira, 15/03. O pessoal marcou presença e fez bonito!
Registrei. Confere:

Público soltou a voz


♫♪ "Vou chorar sem medo, vou lembrar do tempo
de onde eu via o mundo azul..." ♫♪


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quarta-feira, 14 de março de 2012

Edital informal: montagem de um time de polo aquático

Pessoal, ando um pouco distante do blog, mas a causa que me mantém afastada é nobre. Nobilíssima. Ocorre que estou montando um time de polo aquático na minha rua! Será um avanço sem precedentes para Taquari! Creio que, se soubermos tirar proveito das situações, contornaremos problemas insolúveis, e, de quebra, ganharemos no quesito “saúde”. Antes polo aquático do que estresse, correto?
Como em qualquer seleção, é claro, há pré-requisitos para a aceitação dos participantes. São eles:

* saber jogar polo aquático;
* não saber jogar (no fim, todo mundo aprende);
* já ter tomado banho de chuva;
* já ter tomado "aquele" banho de lama (carro + poça gigante + você fora do carro);
* possuir touca própria (o time, evidentemente, não terá patrocínio)
* por fim, mas não menos importante: ter vontade de acertar nas próximas eleições.

Interessados devem entrar em contato comigo - em qualquer rede social - para marcarmos a entrevista e o exame médico.
Para encorajá-los, deixo a foto da piscina na qual treinaremos (abaixo). Fica na minha rua.
Abraço,
Futura treinadora do time.  
 

Foto de Cristiane Lautert

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Diálogos (im)pertinentes

-  Tô organizando uma nova programação na rádio da empresa. Quais músicas tu gostarias de ouvir ao entrar em um mercado?
-  Eu gostaria de ouvir o bom e velho rock and roll, mas isso só seria possível num mundo perfeito.
- Tô colocando bastante pop rock.
- Coloca alguma coisa gospel. Mais da metade da cidade frequenta alguma igreja.
- Gospel em inglês, né?
- Por quê?
- Meus chefes são preconceituosos quanto a isso.
- Eles não são preconceituosos em inglês, então?

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Do bloqueio para escrever

O cursor pisca.

O blog, abandonado, pede um texto.

A ideia sobrevoa o pensamento sem fazer ninho.

Quem vence a jogada é o bloqueio.

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domingo, 1 de janeiro de 2012

Um balanço de final de ano

            - Como fazer um balanço de final de ano sem se repetir?
- Fazendo coisas diferentes em cada ano?
  
Em 2011...
Fiz pouquíssimas postagens no blog, mas, para compensar, reclamei muito. Reclamar não muda as coisas, mas também não custa nada. Reclamei do IPVA, do mau atendimento nos estabelecimentos, da falta de bom senso, da chatice das pessoas, dos funkeiros nos ônibus, de uma lista infindável de coisas.

Reclamar: não muda, mas não custa

Senti saudade do verão, dos amigos que partiram, da infância. Senti saudade de gente presente. Tive pesadelos cinematográficos. Chorei abraçada a uma estranha num dia frio. Fiz rima. Fiz freela. Recusei oferta de emprego. Tomei banho de chuva. Ganhei rosas. Cortei o cabelão. Vi o Orkut virar fumaça e o Facebook virar Orkut. Não comprei vinis nem CDs. Gravei entrevistas em fitas K7. Tive calázio, dor de cabeça e falta de paciência. Engoli chiclete. Lembrei-me, imediatamente, do aviso tão presente na infância:
- Não engole o chiclete porque gruda nas tripas - advertia a mãe. O medo era grande. A memória, imediata.
           
Tranquei três dedos numa porta, não li uma porrada de e-mails. Não fui à praia, mas pensei seriamente em jogar meia dúzia de sacos de sal na piscina, esparramar areia em volta, e contratar alguém para agitar a água. Voilá: uma praia. 

A fonte do teclado (quem se lembra do balanço de 2010?) não estava queimada. O problema é maior do que eu imaginava: o teclado está queimado. Lá se vão outros tantos meses para o conserto. Livrei-me da tecnologia CDMA. Sim, senhores, eu ainda tinha, até o dia 24 de dezembro, um celular sem chip, que passou a maior parte do ano sem créditos. Temperamental, funcionava quando queria. Na Unisc, nunca. No entanto, despertava certinho.

Escrevi meia dúzia de textos, publiquei uns aqui e ali. Ganhei segundo lugar num concurso literário (se fosse de beleza, teria mais repercussão?), saí no jornal. Perdi vários marcadores de livros, ganhei livros, fiz com que outros lessem livros, comprei livros, li 21 livros. 

             
Meus amigos me deram verdadeiras aulas sobre como ser forte em situações nas quais a maioria desaba. Vi uma esposa acreditar no milagre quando a situação era aterradora. Vi o milagre dela, sentado numa poltrona, sorrindo e conversando, contrariando o impossível. 

Amigos antigos retornaram ao meu convívio e encheram os meus dias de brilho. Outros me decepcionaram, mas também me ensinaram que presença a gente não impõe. Ou te querem por perto ou não. A pessoa linda (oi, Ismael!) que conheci em 2010 me acompanhou durante todo o ano de 2011. Continua sendo lindo. Por dentro e por fora. Mãe está bem, pai também. E como sou grata a Deus por isso!

Fiz coisas aparentemente insignificantes.
Fiz coisas, aparentemente.
Fiz coisas.
Fiz. 

Tudo assim, sem aparente ligação, do jeito que a vida é.
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Foto 1 -
Sias van Schalkwyk (sxc.hu)
Foto 2 - Zsuzsanna Kilian (sxc.hu)