quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Uma discreta descrição


O cursor pisca, incessantemente, no documento aberto na tela do computador. Pede um texto, dois parágrafos que sejam. Eduarda, de pijama azul e pantufas de coelho - cujas orelhas se movimentam ao sabor dos passos dados pelos pés da dona -, levanta-se e vai à cozinha. Precisa de café para escrever. Passa pela sala, olha os quadros na parede. Procura uma ideia para o texto. Com os cabelos bagunçados e os olhos ainda manchados de rímel, Eduarda passa pelo pai, que assiste a TV, sentado no sofá. Ele recebe-a com um “boa tarde”. Eduarda franze o cenho. Olha para o relógio na parede: 12h05min. Ela devolve o “boa tarde” com um sorriso. O pai balança a cabeça e sorri. Já está acostumado à rotina da filha: dorme tarde, acorda tarde e escreve.

Eduarda põe o café na xícara, abre o micro-ondas, estipula o tempo de um minuto e fecha-o. Espia a TV. Está passando uma reportagem sobre cubos mágicos, num telejornal. Ergue a sobrancelha direita. A risada não tarda a aparecer.
- Quanta relevância! - pensa. 
Desvia o olhar da TV e atenta para a contagem regressiva do micro-ondas. Cancela a operação no último segundo restante - odeia os três apitos do aparelho. Pega a xícara, passa novamente pelo pai, dá-lhe um beijo na barba por fazer, e volta ao quarto, com as orelhas das pantufas anunciando um tombo a cada passo. Repousa a xícara em frente à tela, senta-se e encara o cursor novamente. Eduarda precisa fazer uma descrição. Tal qual a de Gay Talese sobre Frank Sinatra. Eduarda é estudante de jornalismo.

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Microconto



Fiquei encantada com o microconto (chamemos assim) que minha amiga e colega de curso, Juliana Bencke, escreveu. Reproduzo as linhas:
Quando o telefone tocou, ela não correu para atender. Pé por pé, atravessou a sala calmamente. Quando o aparelho tocou pela terceira vez, ainda faltavam dois metros até a escrivaninha, e ela aproveitou para agarrar o gato que cruzava a sala naquele momento, de olho no prato de macarrão que ela havia deixado em cima da mesa da cozinha. Na quinta chamada, alcançou o fone. Apesar do nervosismo do que estava no outro lado da linha, conversou com naturalidade. Sem largar o gato, puxou uma cadeira que estava por perto e sentou. Não que tivesse se assustado. Pelo contrário, continuou alisando o pelo do bichano com cuidado e olhando para o porta-retrato acomodado em cima da escrivaninha como se, assim, pudesse compreender certas coisas. Não se preocupou em colocar o fone de volta no gancho. Deitou, com as pernas encolhidas, no sofá de dois lugares e chorou por meia hora. Almoçou quieta a comida fria, vestiu o único vestido preto – usado em todos os funerais – e saiu. 
Juliana Bencke