quarta-feira, 3 de abril de 2013

O que sobra com o que falta


É comecinho de noite. O chimarrão passa de mão em mão. Pai, mãe e filha, na cozinha, assistem ao noticiário na “caixa mágica”. A cozinha é o ponto de encontro da família que, na maioria das noites, fica incompleta – a filha estuda longe e chega tarde. A janela arredondada está aberta, mas ninguém presta atenção na noite que chega. Nenhum olhar é dirigido a ela. A família está reunida, mas o momento, raro, passa despercebido. Estão todos ocupados demais. Falar interromperia a lógica da coisa toda. O telejornal exige atenção. Não dá para fazer outra coisa ao mesmo tempo. Tirou o olho da tela, perdeu.

Uma queda de luz escurece a casa e cala a TV. As três bocas, finalmente, podem falar. O trio permanece sentado. A janela assume seu lugar no ambiente. A luz da noite que recém começa entra, mas não ilumina o suficiente. As memórias vão chegando devagar.

- Antigamente era assim. Lampião, vela, o barulho da noite – lembra o pai.
- As pessoas iam dormir cedo – emenda a mãe.
- É gostoso isso. Dá para conversar – observa a filha.

Os três aproveitam o momento por alguns instantes, em silêncio, até que o pai é tomado por uma súbita vontade de cantar. Mãe e filha são pegas de surpresa. Ele canta alto, se diverte, ignora as risadas das duas, varia o repertório de músicas antigas.

- Mas isso até é coisa pra se filmar e colocar na internet – sugere a mãe.
- Vou pegar a câmera!

O vídeo, é claro, está escuro, mas ficou divertido:


Memórias. Música. Escuro. Risadas. É o que sobra quando a luz falta.

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O cantor inspiradíssimo do vídeo é o meu pai, Sílvio Felipe Soares.