sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Os corações dos donos dos guarda-chuvas

Imagem de my-walls.org

Quando Maria se foi, pareceu mentira, sonho ruim, brincadeira de mau gosto.
A notícia entrou pelos ouvidos e encontrou-se com a incredulidade. Deu algumas voltas dentro da cabeça e saiu pela boca, em forma de pergunta, num volume que despertou a atenção dos demais passageiros do ônibus.

- Quê?

Era difícil demais acreditar naquilo. A Maria. A mulher que tirou foto comigo quando eu tinha dois anos. Que tinha guardado o convite do meu aniversário de 26 anos atrás. Que tomava chimarrão todo santo dia. A esposa do Nelson. A vizinha que recolhia as roupas do nosso varal quando chovia e não estávamos em casa; que as trazia dobradas, mais tarde. A Tuca, que mantinha as unhas dos pés impecáveis. Que se arrumava para sair e perguntava se estava bonita. Que sempre tinha doce na geladeira. Que era diabética. A Maria, de nome comum, mas tão diferente. A Maria Valdeni.

Jovem demais. Como assim alguém sai dessa vida sem ter envelhecido o suficiente? Sem ter passado pelos 70, 80 anos? Como alguém parte sem ter cabelos brancos e sem assumir aquele ar de sabedoria e doçura que a idade impõe até aos mais rabugentos?

Próxima demais. Como abrir a janela e não vê-la? Como passar em frente à soleira da porta, na qual ela costumava se sentar, e não esperar encontrá-la? Como assim ela não vai estar presente na minha formatura? E as tardes de chimarrão, agora, como ficam?

No dia da despedida, o céu chorou chuva. Era tanta a tristeza que o dia pintou o cenário de cinza. Os guarda-chuvas se espremiam em meio aos túmulos. Seus donos queriam dar o último adeus. Os corações dos donos dos guarda-chuvas também se espremiam. Chovia sobre todos. Uma chuva pesada e fria; implacável. Os olhos também choviam. Uma chuva leve e quente; inconsolável.




sexta-feira, 16 de agosto de 2013

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Velharia

Estou envelhecendo - todo mundo está -
 e preferindo 
os silêncios, 
os meus discos, 
alguns livros, 
a calma, a cama e o chá.

Imagem carinhosamente cedida por Angélica Viana