sexta-feira, 23 de maio de 2014

O som do Juvenal


O som é insuportável. Duarte não acredita que possa estar vindo da esquina. “Definitivamente não”. A cama parece ter pregos. Rola, sem sossego, de um lado para o outro. Sua esposa, “a megera debochada”, parece não se importar com nada. "Como sempre. Só se preocupa com ela mesma e quando o assunto pode render uma boa fofoca”.

Foto de Nuno Fernandes - SXC.HU

Duarte acende a luz e senta-se na cama. Faz um bom tempo que está tentando dormir, e, agora, o infeliz do Juvenal ‘esgaça’ o som. “Lá da esquina”. Põe-se de pé. A esposa, já pensando em oferecer ao marido um daqueles remédios para dormir, pergunta a si mesma o que o “resmungão do Duarte” estaria aprontando a uma hora dessas. Está prestes a perguntar o que está acontecendo, quando Duarte reclama:
- Marilda, tem cabimento um som desses ligado a uma hora dessas? Eu tenho que acordar cedo amanhã. Já é meia-noite e quinze! Meia-noite e quinze, Marilda! Isso não cabe no possível!  Quer saber de uma coisa? Eu vou lá!
- Vai aonde, criatura sem sossego? Sossega o teu facho! Deita e dorme!
- Dormir? Com esse barulho que ele chama de música? Não. Vou resolver isso, e vou resolver agora!

Duarte leva dois bons minutos para encontrar o roupão, soterrado pela montanha de roupas que Marilda deixara no sofá, e que, pelo visto, não pretendia guardar tão cedo. “Sonsa”. Veste o roupão, calça os chinelos e sai. Só em frente a casa do Juvenal é que se dá conta de que está apenas de roupão e chinelos. Pior: “Chinelos e meias. Barbaridade!” Bate na porta. Nada. Bate mais forte. Nada. “Também, com uma barulheira dessas, não tem como me ouvir mesmo”. Bate novamente, ainda mais forte, a ponto de machucar os dedos.

Juvenal, com uma camisa listrada, de um time que não era da cidade, atende:
Duarte, que não gosta de rodeios, diz logo a que veio.
- Tu sabes que horas são, Juvenal?
- Boa noite, seu Duarte. Só um momentinho.
Duarte, com aquela cara de trouxa, fica parado na porta, enquanto Juvenal se retira. Ele volta e, sorrindo, responde:
- Meia-noite e vinte e dois, seu Duarte. Era só isso?
O sangue ferve. Duarte quase berra:
- Escuta aqui, meu caro, não te faças de louco. Será que dá pra baixar esse som enquanto a gente conversa?
- Só um momentinho, seu Duarte.

Duarte ouve o volume baixar – consideravelmente –, enquanto observa um dos filhos de Juvenal espreitando-o da porta, que julga ser a da cozinha. Com o nariz sujo e a barriga saliente, esfregando uma fraldinha no nariz, o menino não tira os olhos de Duarte, que, por sua vez, faz careta para o guri.
“Guri esquisito! Eu, hein? O Juvenal tem que ensinar esse piá a não encarar os outros. Se fosse meu filho, ‘tava na cama a essa hora!”.

Juvenal volta. A ira de Duarte se aplaca quando ele pensa que, talvez, naquela noite, o guri estivesse com mais problemas do que ele. “Afinal, se lá em casa o som chega daquele jeito, imagina como não estão os tímpanos desse moleque!”.

- Juvenal, não é querer ser grosso, mas já sendo: se tu não tens o que fazer amanhã, bom pra ti. Respeito a tua vontade de não trabalhar. Faz parte. Mas não me lembro de nenhuma eleição entre os moradores para escolhermos o DJ da rua. Se a gente tivesse votado, tu terias perdido. Amanhã, vou estar caindo de sono no serviço, e, se for demitido, a culpa vai ser tua! O gurizeiro vai pra escola e espero que nenhum volte com advertência por ter tirado um ronco na sala de aula. Agora, Juvenal, tu faz o favor de desligar essa porcaria. Vim aqui resolver isso na maior educação, como tu bem pode ver. Podia ter chamado a polícia, mas pra tu ver como eu sou um bom vizinho, não chamei.

Juvenal, após escutar tudo quietinho, sorri. Um sorriso “besta”. “Um sorriso bom. Funcionou”, - pensa Duarte. “Tudo resolvido”. Sem palavras, os dois se despedem. Duarte volta para casa saboreando o doce gosto da vitória. Na rua, só um ou outro cão latindo. Tudo mais é silêncio. Duarte sorri. “Agora vou poder dormir, finalmente”. Entra no quarto. Marilda ainda está lá, do mesmo jeito, sentada na cama.
- Tudo resolvido, então? Podemos voltar a dormir, Duarte?
- Tudo resolvido, gaúcha. Tu tá achando que tá falando com quem? Claro que tá resolvido. Uma boa conversa resolve tudo sempre. Não é o que dizem?

Duarte tira o roupão, descalça os chinelos e se deita de lado. Silêncio total. O travesseiro está confortável; o clima, agradável. Marilda ainda não dormiu, o que significa que, se ele pegar no sono antes dela, talvez não ouça o seu “ronco de acordar defunto”. Condições perfeitas. Duarte fecha os olhos. A música recomeça. Agora, num volume um pouco mais alto. Duarte abre os olhos e fita, fixamente, a parede, com um olhar tão besta quanto o sorriso do Juvenal. Ele não se move. Não acredita. Ainda olhando para a parede, ouve a esposa, debochada, sentar-se na cama. Em seguida, sente a mão dela tocar-lhe ombro.

- Duarte. Ô, Duarte. Quer dançar?

quinta-feira, 8 de maio de 2014

O velho e o cobrador



O ônibus, em condições decadentes, fazia bastante barulho. Havia poeira acumulada nos bancos – alguns, rasgados – e nas janelas, que vinham abertas. Os passageiros mais perspicazes entenderiam a proposta: desenhar no pó sempre fora um jeito lúdico de extravasar a arte – as mãozinhas das crianças e os carros sujos, indefesos, no meio da rua, sabiam disso muito bem.

O descaso com o veículo já nem era percebido. Acostumadas a ter pouco, as pessoas contentavam-se com o que tinham. As cortinas das janelas não viam água e sabão há muito tempo: nem o sol, ardido, no rosto dos passageiros, era motivo suficientemente forte para que estes as tocassem. A velha roleta, localizada próximo à porta traseira, fora abandonada pelo jovem cobrador, que se equilibrava no corredor, catando trocos na velha pochete. Ainda assim, cumpria sua função: girava e girava, seguindo a marcha dos corpos. Um moinho de gente. Um moinho de gente cansada. 

Assim que o ônibus parou, o velho, corpulento, de olhos claros e cabelos brancos, entrou pela porta da frente. Nas mãos, trazia uma sacola plástica com meia dúzia de coisas. Contrariado, reclamou com o motorista. O motor, que berrava alto, impediu os demais passageiros de compreenderem a causa da insatisfação. Ainda de pé, equilibrando-se, o velho dirigiu seu vozeirão ao cobrador. A queixa: o ônibus não havia parado para recolhê-lo, uma ou duas horas antes, em outra rua da cidade. O cobrador alegava, sem muita paciência, que não podiam recolher ninguém que estivesse fora do ponto de ônibus. A discussão se arrastava. Os passageiros, confusos, esforçavam-se para entender o que acontecia – e disfarçavam o incômodo como podiam.

- Tu paga passagem? – perguntou o cobrador.
- Não – respondeu o velho.
- Então, não tem direito de reclamar.

Alguns segundos depois, as vozes alteradas se calaram. O barulho do motor voltou a reinar, absoluto, sufocando o silêncio daquela gente cansada demais para dizer o que deveria ser dito àquele jovem, que também será velho, embora, aparentemente, tenha se esquecido disso.

O cenário: no Brasil, estima-se que, em 2030, o número de pessoas com idade superior a 60 anos representará 18,62% da população. No Rio Grande do Sul, a população de idosos corresponderá a 24,28% do total de habitantes do estado (que será de, aproximadamente, 11,5 milhões). A projeção do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgada em agosto de 2013, foi baseada no aumento da expectativa de vida e nas quedas das taxas de natalidade e fecundidade.

Em Taquari, cidade na qual vivem o velho e o cobrador, os resultados do Censo Demográfico 2010 indicaram uma população de 26.092 habitantes, dos quais 3.703 (14,19%) tinham idade igual ou superior a 60 anos – 1.628 homens e 2.075 mulheres (veja no gráfico). 

Fonte: IBGE
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O ensaio: neste cenário, os atores precisam estudar o roteiro, lidar com o improviso, treinar em frente ao espelho. O idoso é o reflexo no espelho. Um reflexo do futuro. Suas rugas e seus cabelos brancos profetizam uma realidade que pode parecer distante, mas chega, mais tarde  ou mais tarde.